20.º Domingo Comum – 15 de agosto

S. João 6,51-58

A antiga crença de que o corpo humano é inteiramente pecaminoso e a alma é pura, baseia-se na ideia de que o ser humano é uma dicotomia e não um todo. Fragmentar ou “dissecar” a experiencia humana em departamentos, é erro grave. Por vezes, tentaram excluir o Jesus humano do Cristo divino; dissecando sua vida, como estudantes de medicina dissecam um corpo, em aula de anatomia humana. Tentaram fazer de Jesus uma figura remota, vaga e vazia do poder que ele tem de nutrir alma, corpo, coração e espirito, de dar vida a mortos.

Todos os escritos de João, incluindo as pequenas epístolas, iniciam declarando sua humanidade: ‘No princípio o verbo fez-se carne’ (João 1. 14, I João 4.1,2, II João 1.7) indo contra filósofos do docetismo que negando a humanidade de Cristo, enfatizavam a divindade em detrimento do seu corpo, que para tais era aparente mas não real. Ora, se a humanidade de Cristo foi apenas uma aparência, então, seu sofrer, morte e ressurreição, e igualmente nossa redenção seria mera ilusão.

Jesus, mestre em hipérboles, chama a atenção de seus ouvintes usando figuras que ilustram sua divindade e vocação. As metáforas são por demais fortes e causam admiração, embaraço e ate escândalo que é compreensível e justificado. O texto de João declara que Jesus é Superior a Moisés, e superior ao Israel primitivo, que comeu do maná no deserto e ainda assim pereceu. Jesus, em seu corpo efémero e vulnerável, é também o cordeiro pascal e o pão vivo, que jamais perece.

Metáforas como pão, carne e sangue apontam para o homem da cruz e filho de Deus, que são uma mesma pessoa, não podendo ser separados, excluídos um do outro. Para Nicodemos, que passou pela vida e não viveu, Cristo é a chance de nascer de novo. Para a mulher samaritana que gastava horas buscando agua, Cristo é a água viva. Para os que assediavam Jesus pelo pão que perece, ele é o pão que desce do céu. Cristo sempre será um mistério, que a filosofia não tem vocabulário adequado para explicar. Mas para nós, famintos da sua graça, bondade, pureza e compreensão, Ele será, para sempre, o pão verdadeiro capaz de saciar um planeta inteiro, carente – que produz e desperdiça tanto e partilha tão pouco.

Abilene Fischer, presbítera

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