Morreu o pastor Dimas Almeida aos 86 anos

O Renovar Redentor teve a amabilidade de me pedir umas linhas sobre o Professor Dimas de Almeida, recentemente falecido. Fico muito grato por esta solicitação.

Conheci o Professor Dimas de Almeida, quando estudei no Seminário Evangélico de Teologia em Lisboa. Quando ali cheguei em Outubro de 1985 e me apresentei nas instalações, em Campo de Ourique, nas duas primeiras semanas o Professor Dimas de Almeida por qualquer motivo não esteve presente. Mas vários dos colegas que já frequentavam o Curso Superior de Teologia me foram falando dele. O que ouvi impressionou-me muito. Falaram-me do seu génio Teológico, da sua capacidade de com calma nos ir tirando uma certa visão redutora do Evangelho para nos abrir a mente a novos caminhos, novas verdades e novas vidas. Tornando no plural a singularidade da Palavra de Jesus de Nazaré. Avisaram-me da sua grande exigência intelectual, do rigor do discurso, e no seu impressionante conhecimento do Novo Testamento e na prova de fogo que representava para todos os dois primeiros anos de Grego.

Quando duas ou três semanas mais tarde o conheci pessoalmente, de imediato existiu entre nós uma empatia que me tranquilizou, não chegasse ele à então Capela do Seminário onde eu irresistivelmente estava a tocar o “Velho Bach” num piano “velho”…

As Cadeiras que estavam à sua responsabilidade no primeiro ano eram o Grego I, Introdução ao Novo Testamento e Introdução à Teologia, e nos três anos seguintes Teologia e Exegese do Novo Testamento, com cursos anuais.

Cedo me apercebi da profundidade do seu pensamento, da sua estrutura intelectual e do funcionamento da sua mente diante dos estudos Neotestamentários. Em todas as áreas, Dimas de Almeida tinha assumido como missão abrir as nossas mentes e os nossos pensamentos diante da Pessoa de Cristo, mas também da sua paixão pelo texto, lido no original, despido de traduções manipuladoras a fim de dar cobertura conveniente às doutrinas estabelecidas. Assim nos limpou as catequeses um tanto ao quanto ingénuas que levávamos das Escolas Dominicais das Igrejas. O seu método não primava pela subtilidade nem pela suavidade… aí surgia o Professor e o Intelectual que nos depurava o pensamento. Estimulava-nos a ler os Teólogos Contemporâneos, através dos quais nos mostrava a diferença entre a Teologia que se fazia na Europa Anglo-saxónica e a teologia da Europa do Sul, mais envergonhada, mais conservadora e direcionada para a servir de base às Doutrinas vigentes. Ensinou-nos a pensar pela nossa própria cabeça com todos os riscos que isso implica, e isto mesmo diante dele. Não pensava duas vezes em nos corrigir sempre em direcção à “Gloriosa Liberdade dos Filhos de Deus”, que levava muito a sério e para ele era a condição fundamental da vida do Cristão, da vida da Igreja, mas também nossa, dos que sentiam a vocação para o Ministério. Para o Professor Dimas de Almeida, nunca esquecendo a Pastoral, era no Púlpito que o Pastor se devia destacar como ensinador e pedagogo rigoroso e honesto. Guardo para mim até hoje o seu maior conselho: “Nunca, jamais, façam do texto um pretexto”! Pessoalmente esta é a regra que eu sempre segui e que não abdico.

O mais estranho que eu achei nele, era o pedido, sempre veemente, que o tratássemos por “tu”. Uns colegas faziam-no com facilidade, eu, mais formal, nunca consegui. Agora que ele já foi ao encontro do Senhor da Palavra, só posso dizer-lhe: Dimas obrigado por tudo o que tu fizeste por nós…até breve, até ao momento que o “Senhor do Texto” nos fizer reencontrar…!

José Manuel Cerqueira

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