28º Domingo Comum – 10 de outubro

S. Marcos 10,17-30

O Versículo desaparecido…

Decidi dar ao meu texto um título porque reflete a minha abordagem ao nosso Evangelho. Não deixa de ser extraordinário que contém uma temática intensa e moderna, para fora e para dentro da Igreja. Aborda o conceito de “bondade”, que Cristo recusa para Si; o porquê da citação dos Mandamentos que dizem respeito apenas às relações humanas, e não com Deus; ao exercício extraordinariamente difícil representado na capacidade ou não de nos libertarmos dos bens materiais – e devemos fugir à ideia que bens materiais são apenas dinheiro, ouro, pedras preciosas etc. etc. porque existem outros bens não-materiais dos quais não somos capazes de nos livrar e alguns deles mais perigosos. Levanta a questão dos ricos no Reino. É notável que a expressão de Cristo: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino dos Céus”, seja citada gratuitamente sem contextualização, que tanto está na moda ultimamente por motivos bem conhecidos. A questão dos discípulos continua válida: “Quem poderá pois salvar-se?” Dá-nos a impressão que eram todos ricos e que de súbito todos ficaram preocupados com esta restrição. Talvez os discípulos tenham entendido que o Senhor se referia a mais do que bens materiais. O texto na sua imponência lembra: “para Deus tudo é possível”. Ora isto não é exatamente o mesmo que dizer que para Deus nada é impossível. Nas Suas palavras está bem definido: o impossível é para nós – o possível para Deus! A diferença fica estabelecida, cada um tem que aprender a lidar com ela! O texto trata do que possuímos durante a vida, as conquistas, os sonhos, a família, os bens – afinal tudo o que somos chamados a deixar para o seguir! Mas Cristo diz que se o deixarmos e o seguirmos, teremos tudo multiplicado por cem, nesta terra, que é o mesmo que dizer nesta vida! Ou seja preocupações, desafios, relações familiares, profissionais, afetivas, materiais…tudo multiplicado por cem! Mas a “coroa de ferrugem” é no fim ganhar a perseguição! Desde que me foi atribuído este texto, que me debato com a angústia de não conseguir entender porque é que a citação excluiu o versículo 31, que é o que dá coerência a tudo? O versículo desaparecido: “ Muitos do que agora são os primeiros, serão os últimos, e os últimos serão os primeiros” (v.31). Não quero crer que está ausente porque quem escolheu o texto nos quis poupar trabalhos e preocupações…mas é ele que coloca a verdade humana, falível e transitória, alinhada com a verdade de Deus. O texto tem uma realidade: humanamente tudo é instável, só Deus tem a ordem final para todas as coisas. Aqui há os que se apresentam como primeiros e serão os últimos, os últimos que serão chamados a ser os primeiros e os que se fazem de últimos à espera de serem chamados para serem os primeiros! Quem sabe a diferença…? Só Deus. Porque para Ele tudo é possível…!

José Manuel Cerqueira

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