In Memoriam Pastor José Leite

Quando estive a estudar em Lisboa, o nome do Pastor José Leite era-me distante dado que nos anos 80 ele exercia funções no estrangeiro. No entanto o seu nome era com frequência citado em diversas circunstâncias, da vida do Seminário e da Igreja Presbiteriana. Conheci-o pessoalmente numa das suas passagens por Lisboa em que foi convidado para partilhar o estado do Ecumenismo na Europa. Nesse encontro percebi a profundidade da sua experiência que me fez suspeitar que haveria de existir uma qualquer diferença entre o nosso ecumenismo, e o que se fazia no resto do mundo, e percebi que o Pastor Leite trabalhava no centro dos acontecimentos. Lembro-me de ter saído desse encontro com a sensação que a nós, nova geração de Pastores o seu apelo foi a não nos contentarmos com pouco, mas procurar sempre o diálogo constante. Mais tarde vim a saber que o Pastor José Leite tinha tido uma experiência política muito significativa, tendo sido o primeiro Presidente da Camara Municipal da Cidade da Figueira da Foz depois da Revolução de 25 de Abril, cargo que não parece ter exercido qualquer influência sobre a sua vida cristã nem na sua fidelidade à Igreja Presbiteriana, mas que certamente lhe deve ter dado experiência humana suficiente em ambas as direcções. Estou convencido que nunca politizou a sua vida cristã, mas certamente cristianizou a sua responsabilidade civil.

A minha experiência mais significativa com o Pastor Leite foi de carácter estético, e aconteceu num Domingo de Pascoa. Na Igreja do Mirante, nesse Culto Solene cantou o Coro do Mirante. Há muito tempo que desejava fazer com o Coro uma peça de Bach, o que representava um esforço extra, quer para mim quer para os coralistas dada a complexidade da sua música e a lentidão que implicam os ensaios para fazer qualquer das suas obras, para ser bem feita, claro! Nesse ano, que não posso citar aqui porque não tive tempo de consultar os meus arquivos, com esforço e dedicação preparamos a Fuga Final a Cinco Vozes do Magnificat BWV 243. Tinha havido uns problemas “técnicos” por ser um texto em Latim! Estávamos todos muito ansiosos, mas para encerrar o Culto com um estado de alma entre a solenidade e a expectativa, o Coro cantou de forma perfeita. Quando acabamos, fez-se um silêncio que não posso esquecer. Acontece que entre congregação estava o Pastor Leite e a sua esposa. Este levantou-se e ofereceu-nos a interrupção do silêncio com uma salva de palmas que arrastou consigo toda a restante congregação. No fim o Pastor Leite ao cumprimentar-me disse: “Parabéns, não é muito vulgar ouvirmos estas coisas por aqui, esta música ouve-se só nas Igrejas por este Continente acima”. Pode parecer um momento com a importância de muitos outros que colecionei, mas este é especial porque quebrou com o tabu do latim, e especialmente trouxe uma responsabilidade cultural à música que se deve fazer na Igreja. Obrigado, Pastor José Leite, e até breve se Deus quiser!

José Manuel Cerqueira

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